Apontamentos sobre o forró em Alagoas - pesquisa em andamento
Em 2019, Carlos Sandroni me convidou para fazer parte da equipe de pesquisa para a Instrução do Registro das Matrizes Tradicionais do Forró, que está sendo feita junto ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) junto à Associação Respeita Januário, de Pernambuco. Diferentemente dos outros membros da equipe, eu seria o único a pesquisar "fora de casa", ou seja, em um Estado diferente do meu. Fiquei responsável por mapear a produção do forró tradicional no estado de Alagoas.
E assim, entre 25 de novembro e 9 de dezembro de 2019, fiz minha primeira viagem a Maceió, a fim de fazer um levantamento dessa produção musical, conversando com pessoas que fazem e lugares onde se toca e dança o forró. Nessa primeira pesquisa de campo, tive o apoio e a amizade de José Lessa, presidente da Associação dos Forrozeiros de Alagoas (ASFORRAL). O site Forró Alagoano, criado e mantido por Lessa, também é uma grande fonte de informações e registros em áudio.
Nesta postagem, apresento apontamentos tirados do relatório preliminar da pesquisa, feito em junho deste ano. Pretendo comentar um pouco da história, dos personagens e algumas situações das quais venho participando. A leitura pode ter um diálogo com a iconografia e os exemplos musicais em áudio e vídeo. A pesquisa dos exemplos musicais tem como fontes importantes os sites Forró Alagoano, Forró em Vinil, Acervo Origens e Discografia Brasileira do Instituto Moreira Salles. Links ao final da postagem.
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O estado de Alagoas tem uma representatividade forte, e muitas vezes pouco reconhecida, na produção musical relacionada ao forró. Desde a época mais remota de definição do gênero musical, artistas desse estado vêm realizando trabalhos que merecem um olhar mais atento por parte da historiografia do forró. Entre os nomes que se tornaram seminais para esse processo, encontram-se o cantor e compositor Augusto Calheiros (1891-1956) e o multi-artista José Luiz Rodrigues Calazans, conhecido como Jararaca (1896-1977). No início do século XX, ambos se deslocam para Pernambuco e depois para o Rio de Janeiro, onde são absorvidos pelo teatro e pelo mercado fonográfico, a partir do qual trabalham gêneros como a embolada e a toada, fundamentais para o que mais tarde vai surgir como baião, pela voz e sanfona de Luiz Gonzaga.
O irreverente Jararaca
O forró de Alagoas tem uma marcante presença das manifestações culturais de tradição oral, pela ligação que vários forrozeiros de gerações mais antigas têm com os folguedos dos Guerreiros e do Reisado. Isso é presente na recriação musical de texto poético e sonoridades ligadas a essas manifestações, como nos discos de Clemilda de 1975 e de João do Pife de 1977, que apresentam temas do Guerreiro Alagoano. Há uma ligação de vários forrozeiros com os autos dos Guerreiros e do Reisado, origem de várias experiências com música e dança. O cantor e compositor Mestre Zinho (Erivan Alves de Almeida), tinha o título de “mestre” não só pela maestria na performance vocal, mas por ter sido mestre de Guerreiro.
ouça João do Pife tocando Guerreiro Alagoano: https://youtu.be/iGsBD62CRHA]
Depois da presença seminal de Augusto Calheiros e Jararaca, na década de 1950 Alagoas tem outras reverberações marcantes no já estabelecido universo do forró, enquanto produto cultural de um mercado musical. Uma delas é a icônica marcha junina Olha pro céu, composição de José Fernandes, conhecido como Peterpan (1911-1983) em parceria com Luiz Gonzaga, gravada por este em 1951. Peterpan também ficaria famoso pela valsa ‘Última inspiração’, gravada por Gonzagão como tema instrumental, e depois peça indispensável do repertório da música de seresta brasileira.
https://discografiabrasileira.com.br/fonograma/78467/olha-pro-ceu]
Dessa época, merece destaque a carreira fascinante do precursor sanfoneiro de oito baixos Gerson Argolo Filho (1915-1990). Em uma época na qual a sanfona de oito baixos ainda era utilizada de maneira restrita aos forrós de casas do interior, Gerson Filho dedicou-se incansavelmente à inserção de seu instrumento na discografia brasileira, utilizando-se de uma criatividade sem par, ampliando a musicalidade inicialmente limitada do instrumento para abranger os mais variados gêneros musicais do universo do forró. Sua primeira gravação em disco de 78 rpm (gravadora Todamérica), lançada em 9 de abril de 1953, com a ‘Quadrilha na cidade’ (lado A), e o baião ‘Catingueira do Sertão’ (lado B), inaugurou a era fonográfica da sanfona de oito baixos. Importante aspecto da discografia de Gerson é a presença (desde o primeiro registro) da quadrilha. Como diz Leo Rugero Peres em sua pesquisa sobre o fole de oito baixos, Gerson é provavelmente o sanfoneiro que mais gravou músicas dentro do gênero quadrilha.
Nas décadas de 1950 e 1960, despontam outros nomes que vão deixar suas marcas na história do forró, através da indústria dos discos. Outro pioneiro de origem alagoana é o pifeiro João Bibi dos Santos, o João do Pife alagoano. Um dos primeiros registros do pífano em circuito comercial foi feito pelo músico, que lançou em 1966 o disco Solista de pífaro, pela Continental. Na mesma época, surge em cena a cantora Clemilda, apresentada e inicialmente no mercado dos discos pelo seu companheiro Gerson Filho. Clemilda é dona de um repertório vasto e versátil, que inclui músicas inspiradas no folclore alagoano, músicas de autoria própria, composições de seus conterrâneos, até o forró de duplo sentido, que lhe renderá, a partir dos anos de 1980, grande difusão e vendagem de discos.
Outras personalidades forrozeiras alagoanas importantes que despontam nessa época são Luiz Wanderley (27 de janeiro de 1931, Colônia Leopoldina-AL - 19 de fevereiro de 1993, Rio Tinto-PB), o irreverente co-autor do ‘Coroné Antônio Bento’, com João do Vale; e Joci Batista (20 de março de 1934, Igreja Nova-AL - 2012, Olinda-PE), cantor e compositor cuja maneira de cantar e compor possuem familiaridade com a obra de Jackson do Pandeiro, principalmente na sua ligação com o coco.
[Ouça Luiz Wanderley cantando Coroné Antônio Bento: https://youtu.be/KRKqPus7ODM]
Outro forrozeiro que também começa a se destacar nessa época e nos anos de 1970 é Benedito Nunes, intérprete da divertida canção ‘O rabo do jumento’, de Dilson Dória e Elino Julião, e também Benício Guimarães, que compôs ‘Herança de meu pai, para Jackson do Pandeiro. Dois nomes de grande destaque na cena forrozeira nacional nessa época têm origens alagoanas, ambos alcançando projeção nacional a partir de uma carreira firmada em Caruaru-PE: Jacinto Silva (23 de agosto de 1933, Palmeira dos Índios-AL - 19 de fevereiro de 2001, Caruaru-PE) e a Banda de Pífanos de Caruaru, formada como a Zabumba de Manuel Clarindo Biano em 1924 no povoado de Olho d’Água do Chicão, município de Mata Grande-AL, e que se estabeleceu em Caruaru na década de 1930. Sebastião Biano, atualmente com 101 anos, um dos integrantes dessa primeira Zabumba e filho de Seu Manoel, ainda está ativo na música, e tocando pífano.
Na década de 1970 surgem outros nomes importantes na cena do forró alagoano, a exemplo do Mestre Zinho, que passou a década de 1980 quase inteira como vocalista de Os 3 do Nordeste, gravando importantes sucessos do trio, e do compositor Durval Vieira, de Palmeira dos Índios. Durval é, ao lado de Clemilda, um dos pioneiros do chamado forró de duplo sentido, que teve também forte expressão nos anos de 1980 na produção forrozeira de Sandro Becker, também alagoano, de União dos Palmares. Durval é compositor de ‘Tem pouca diferença’, que foi gravada por Jackson do Pandeiro e por Gal Costa com a participação de Luiz Gonzaga. Construiu nos anos de 1980 toda uma musicografia voltada para as canções de duplo sentido, utilizando temáticas picantes de forma bem-humorada e recorrendo a trocadilhos e jogos de palavras.
Importante observar que as carreiras de praticamente todos esses artistas foram desenvolvidas a partir da migração para o centro do mercado artístico da época, o eixo Rio-São Paulo. Situação comum aos nomes que tiveram projeção nas décadas de 1950 até meados da década de 1980. Os artistas precisavam fazer esse deslocamento para poder gravar e divulgar seus discos. Somente a partir dos anos de 1980 é que começou a surgir a possibilidade de realizar esse movimento no próprio estado, com o surgimento da gravadora independente Gogó da Ema. Por este selo, foram lançados vários discos de forrozeiros alagoanos que hoje são referência, a exemplo de Sandoval, Messias Lima, Tião Marcolino, Irineu Nicácio e Xameguinho. Atualmente, essa geração mantém uma produção significativa na cena forrozeira local, em diferentes frentes: Sandoval é administrador da casa de forró O Cortiço, onde acontecem festas todos os domingos; Xameguinho tem seu próprio estúdio – referência para produções fonográficas; Messias Lima é também radialista, o que lhe dá oportunidade de divulgar o trabalho da cena forrozeira.
[Ouça Tião Marcolino no LP Liberdade: https://youtu.be/TN5iuqzS5Ps]
Nas últimas décadas, duas iniciativas têm tido grande relevância para a união entre os forrozeiros em Alagoas: a criação do site Forró Alagoano (2010) e a Associação dos Forrozeiros de Alagoas (ASFORRAL, 2012), ambas por iniciativa do jornalista José Gama Lessa com o apoio de Rosiane Pedrosa. O site Forró Alagoano começou a disponibilizar para o público internauta um acervo fonográfico e iconográfico valioso dos forrozeiros do estado, incluindo os raríssimos discos produzidos pelo selo Gogó da Ema, além de gravações mais antigas em 78 rpm e programas de rádio.
A ASFORRAL tem desempenhado um papel de representação dos artistas, principalmente junto a estâncias do poder público, como as Fundações de Cultura da Prefeitura de Maceió e do Governo do Estado de Alagoas. A Associação se alinha com movimentos nacionais, como o Fórum Forró de Raiz e a Associação Cultural Balaio do Nordeste, a favor da valorização e continuidade do forró considerado tradicional, sempre em conflito com o chamado forró fuleragem ou forró eletrônico, que possui grande espaço na mídia e nos grandes eventos massificados, promovidos em geral pelas prefeituras e grandes marcas de bebidas.
Alagoas conta com alguns espaços para o desenvolvimento da cadeia produtiva do forró, como o evento Cultura na Praça em Arapiraca, liderado pelo sanfoneiro Afrísio Acácio, e as casas de forró na capital e imediações: Forró do Louro, Tapiocaria Cumadre Fulô (de Cláudia Rejane), O Cortiço, a Toca do Gaúcho, o recentemente fechado Êta, pêga! e o Forró do Rafael, em Marechal Deodoro. São espaços onde o forró considerado tradicional é praticado, em alguns deles com a curiosa alternância com tecladistas e cantores de música romântica-brega, e com o próprio repertório do forró eletrônico, devido muitas vezes à necessidade de atrair público pagador.
Relacionados ao forró tradicional, mas trabalhando com outras frentes estéticas, temos o trabalho dos tocadores de pífano, a exemplo de Chau do Pife, Mestre Gama (que também é reconhecido luthier do instrumento) e a Banda de Pífanos Fulô da Chica Boa, dos irmãos Wellington e Washington, ligados à Universidade Federal de Alagoas. No município de Marechal Deodoro, fez história a Banda de Pífanos Esquenta Muié, liderada por José Cícero.
[Ouça o disco de Chau do Pife, Ninguém anda sozinho: https://youtu.be/FKze3etQAlY]
Em Marechal Deodoro também vive um nome marcante não só para o forró tradicional de Alagoas, como também um dos nomes mais singulares da música brasileira em geral: Nelson dos Santos, o Nelson da Rabeca. Além de compositor de uma obra única, Nelson é também luthier e recebe encomendas de todos os lugares do Brasil. Sua grande parceira é a cantora Benedita dos Santos, sua esposa e compositora de cantigas executadas pela dupla em suas apresentações.
https://youtu.be/ZCY9cJJKaaU]
Nesta pesquisa preliminar sobre o forró em Alagoas, conseguimos identificar pessoas e lugares onde acontece o forró, compreender algumas trajetórias de vida construídas com o forró, e observar algumas características da cadeia produtiva do gênero. Neste primeiro momento, contei com a participação indispensável de José Gama Lessa, presidente da Associação dos Forrozeiros de Alagoas, e de sua esposa Rosiane Pedrosa, que me deram todo o apoio nas primeiras pesquisas de campo e entrevistas que realizei entre 25 de novembro e 9 de dezembro de 2019, quando tive a oportunidade de visitar as cidades de Maceió e Marechal Deodoro em Alagoas, na companhia de Lessa. Também fui acolhido pela equipe do IPHAN-AL, particularmente Maicon Marcante.
A pesquisa de campo teve de ser interrompida devido à pandemia da COVID-19, que teve também consequências entre as oportunidades de trabalho para os forrozeiros do estado, marcadamente no período do São João. Acompanhando de longe, aqui de Recife, a situação, sempre telefonando para Lessa, testemunhei sua luta para conseguir espaço nos editais emergenciais lançados pelo Governo do Estado e da Prefeitura de Maceió, como o Festival Dendi Casa tem Cultura, no qual foram aprovados vários forrozeiros para fazer shows com transmissão ao vivo pela internet, os editais de São João, que também envolvem as lives e também os trios elétricos itinerantes que vão levar forró para os bairros de Maceió, respeitando as regras de distanciamento e isolamento social.
No período junino, depois de muito esforço os forrozeiros conseguiram espaço, e a Associação conseguiu também firmar uma parceria com uma rede de supermercados para conseguir doações de cestas básicas para os forrozeiros. Ainda no sentido beneficente, Alagoas participou no dia 23 de junho do São João na Rede, um evento com transmissões de shows e material gravado de forrozeiros de todo o Brasil, envolvendo as coordenações dos fóruns regionais de forrozeiros, e que recebeu doações financeiras do público.
[Assista à participação de Alagoas no São João na Rede: https://youtu.be/_bD33Ckrfow]
O forró de Alagoas possui um sotaque, um conjunto de características específicas que o tornam singular dentro do panorama do forró nacional, e que terão sua importância no processo de Instrução do Registro para o processo de patrimonialização das Matrizes Tradicionais do Forró. Identificar essas características de maneira mais aprofundada é o que estamos procurando fazer no decorrer desta pesquisa, que, apesar da pandemia, vem sendo realizada com a pesquisa documental, bibliográfica e discográfica. Várias consultas a sites de internet, audição de discografias, contatos virtuais com forrozeiros, estão mantendo a pesquisa e trazendo informações para dar continuidade a essa identificação do forró alagoano.
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Agradecimentos especiais a José Gama Lessa pelo acompanhamento nas pesquisas de campo e ideias trazidas para a pesquisa. Igualmente, a todos os forrozeiros e forrozeiras de Alagoas que vêm participando desta pesquisa.
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Forró Alagoano: http://forroalagoano.com/.
Forró em Vinil: http://www.forroemvinil.com/.
Discografia Brasileira: https://discografiabrasileira.com.br/.














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